Jogo de Espelhos

Todos os dias há novas formas de entreter a população e desviar a nossa atenção do essencial, seja através do futebol, racismo, woke, ideologias de esquerda e de direita, opiniões sobre tudo e sobre nada. Em vez de estar unida contra os cartéis de preços nos bens essenciais, a população está dividida entre ideologias que prometem baixar uns cêntimos nos impostos e defender os interesses corporativos, ou ideologias que juram alimentar os pobres que trabalham no duro para enriquecer os patrões. Em vez de estar unida contra o controlo da comunicação social e da cultura por quem nos quer domesticar, a população está dividida entre portistas e benfiquistas ou outro clube qualquer, entre a intolerância aos intolerantes e o ódio a grupos de cidadãos. Em vez de estar unida contra a eternização de ínfima parte dos ricos e poderosos que detêm quase todo o poder e dinheiro, a população divide-se em partidos políticos que são apenas testa-de-ferro que dividem as pessoas em catálogos e premissas que as entretêm, em busca das migalhas que caem na mesa dos políticos fantoche e das migalhas das migalhas que os seus apoiantes recebem ou esperam um dia receber. Em vez de se unirem e serem espíritos livres, a população opta pelo mais cómodo: seguir a multidão, a segurança do respetivo grupo ou nicho, os camaradas ou companheiros, para que juntos caminhem na estrada dos eternos insatisfeitos, injustiçados e vitimizados – como é bom ser vítima, não importa de quê ou de quem, porque todo o oprimido ama o seu opressor, depende dele a eterna promessa de descanso em verdes prados e a taça transbordante nas mãos.

Enquanto você lê este artigo, há um iate no Mónaco cheio de bilionários. Considera que entre eles há alguma ideologia ou racismo ou feminismo ou nacionalismo ou partidos políticos? – Claro que não, o que lhes interessa é a divisão e que estejamos programados para os continuar a enriquecer e lutar por meia-dúzia de tostões. Nesse iate, os bilionários riem-se dos vossos ideais, marxistas ou liberais, dos vossos conceitos de justiça e democracia, da petulância com que saem dos vossos carros de último modelo, ou o orgulho com quem lêem este artigo em telemóveis de luxo. Eles riem-se de todas as novas razões que vocês arranjam para diariamente se afastarem mais uns dos outros, ficarem mais ignorantes, incultos, amantes do superficial e do imediato. Quanto mais vazios, distraídos, desfocados e estúpidos, menos conscientes de que unidos somos perigosos. E para este combate final não precisaremos ir com armaduras de pensadores do passado, religiões, conceitos em livros novos ou cheios de pó: a nossa consciência, liberdade e resiliência, serão mais do que suficientes. Comecemos por quebrar este jogo de espelhos que nos confunde e divide em crenças, raças, políticas, clubes, estatuto ou conhecimento. É o primeiro passo para nos focarmos no essencial: o desenvolvimento sustentável que passe por erradicar a pobreza e a fome, com saúde e educação de qualidade, trabalho digno e crescimento económico em cidades sustentáveis e simétricas, onde impere a paz, a justiça e instituições eficazes.

Semanário O Diabo

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