Seitas e Ideologias

O segundo milénio da nossa civilização principiou com um declínio que ameaça regredir o que foi conquistado por grandes homens (e mulheres) que ficaram na História ou que permaneceram anónimos, mas cujo legado nos permitiu chegar a uma evolução social e intelectual sem paralelo. No entanto, há algo que nos está a puxar para trás e que deverá ser um recuo civilizacional de décadas e talvez séculos.

O que é comum em todas as seitas é haver uma pessoa que diz ter uma relação especial com uma entidade superior, seja através de um suposto contato direto ou visão privilegiada de livros antigos considerados sagrados, como a Bíblia ou o Alcorão. A partir daqui, essa pessoa convence uma série de outras que o seu poder único é especial e as vai libertar de toda a dor e privação emocional e física. A personalidade do líder é normalmente magnética, extremamente manipuladora e capaz de fazer verdadeiras lavagens cerebrais. Os seguidores são pessoas carentes, àvidas de um propósito ou orientação e que muitas vezes sofreram abusos repetidos ou traumas – ao contrário do que se diz, não precisam ser estúpidas e até podem ter um nível intelectual muito acima da média.

As ideologias utilizam pressupostos muito semelhantes e instrumentos de dominação que atuam preferencialmente através da persuasão ou dissuasão. Aqui a divulgação e esclarecimento não são mais do que doutrinação e lavagem cerebral. Num mundo em que as pessoas se sentem cada vez mais perdidas e sozinhas, mesmo nas suas próprias casas e nos seus países, as ideologias conseguem preencher parte desse vaxio existencial. Ao moldarem o pensamento de um indivíduo dentro de grupos e movimentos, estão a dar-lhe ideias, convicções e princípios orientadores, a partir dos quais estruturam a sua personalidade, comportamentos e motivações.

Em Portugal, como resposta aos cinquenta anos ascendentes de uma esquerda cada vez mais diluída no mesmo radicalismo, a direita moderada está a começar a ter problemas de sobrevivência. Tal como em quase todo o mundo ocidental, ou se desloca para a esquerda, ou para novos movimentos de direita exaltada e embrutecida. No nosso caso, o Chega tomou conta dos costumes e a Iniciativa Liberal da economia, dividindo assim o saque entre si.

Estamos portanto num momento decisivo da nossa História local e global. Nos últimos anos assistimos à bipolaridade entre histerismos coletivos e cepticismos patológicos. Ao contrário do que nos querem fazer crer, a escolha não é entre dois males: a dependência perante atos aleatórios de tirania e a desconfiança doentia sobre conspirações globais – ambas as visões são cegas, aprisionam os seus seguidores e motivam a cessação de prerrogativas que o mundo ocidental dá como garantidas. A escolha é entre extremismos déspotas e liberdade – que só sobrevive na harmonia entre caos e ordem. Portanto, a democracia ocidental só vai sobreviver se não se colocarem em causa as liberdades fundamentais: de expressão, de imprensa, de existência e coexistência numa sociedade justa e igualitária.

Ler o artigo completo (vale a pena) no jornal Observador: https://observador.pt/opiniao/seitas-e-ideologias/

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