E o Prémio deste ano vai para…

Discursos comovidos, primeiras notícias nos telejornais, manchetes em toda a imprensa e entrevistas nos programas popularuchos da televisão. Todos os grandes e pequenos prémios têm um ritual que é alimentado pelo espetáculo que proporcionam, desde os Nobel aos Óscares. Mas os prémios são uma forma da entidade que os oferece, de enviar uma mensagem. Não são, nunca serão, uma maneira de premiar a qualidade da obra ou do autor.

No campo literário, ninguém entendeu isto em Portugal melhor que Saramago. Outros tentam, passam a carreira em busca de agradar ao nicho que decide quem é bom ou mau, sacrificando e falsificando assim a sua arte em detrimento de uma ideologia ou entidade alheia. Exemplo disso nos jovens escritores é Afonso Reis Cabral, que demorou dois anos a escrever um primeiro livro bom, mas logo virou para satisfazer quem manda na cultura nacional e, de uma jovem promessa talentosa, está destinado a ser mais um escritor aclamado medíocre. António Lobo Antunes é um escritor com um talento natural de estudioso e que passou os primeiros livros a tentar imitar Gabriel Garcia Marquez, com temas que sabia que a cultura dominante ia exaltar. Depois, ganhou uma forma de escrita própria, mas manteve essa necessidade desesperada de agradar a meia-dúzia de críticos, cada vez mais importantes. É triste mas é o jogo da literatura, seja ela para vender, para ganhar prémios, ou ambos. E os escritores de hoje são assim, têm de ser assim se querem ser considerados realmente bons: espertos, dominando uma técnica ou pagando a alguém para a dominar por eles, mas capazes de se venderem, muitos antes do livro estar à venda.

No cinema e na televisão, ainda é mais óbvia esta tendência. Fazer um filme ou uma série contra a propaganda mainstream do momento, é suicídio. Se conseguir fazer o milagre de passar pelos produtores, donos de companhias e empresas de distribuição, vai ser de tal forma enxovalhado pela “crítica” e colegas de profissão, que nenhum ator, realizador ou argumentista voltará a trabalhar no ramo novamente. Mas o mesmo acontece, com bases ideológicas ainda mais fortes, nos prémios das ciências, como o Nobel da Economia e da Medicina. Por isso, quando virem o anúncio de um premiado, perguntem primeiro que tudo, “que mensagem é que me estão a tentar dar?” em vez do merecimento ou não. Aliás, se alguém trabalhou a vida toda para um prémio de metal, é porque de certeza desperdiçou a sua vida numa causa mensurável e pequena.

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