O País dos Clichês

Quando penso nos meus colegas da Faculdade, de há mais de vinte anos, mais de noventa por cento conseguiu empregos por cunhas ou em empresas dos pais. Ninguém se destacou ou contribuiu decisivamente para a sociedade. Claro que cada um tem uma fantasia romântica em que lutou muito na vida e chegou onde está por mérito, mesmo que esse local seja um escritório sem portas nem janelas, ou uma sala de aulas com crianças malcriadas. Cada um sabe de si, mesmo que seja um clichê de um pequeno mundo de novos ricos, onde todos são drasticamente pobres, sobretudo de espírito.

A verdade é que vivemos no país dos clichês. Os políticos não são confiáveis mas andam sempre “a conjugar esforços”, o futebol é o orgulho nacional e vai “de vento em popa”, “por via da regra” há duas classes sociais cada vez mais desiguais e, “para finalizar com chave de ouro”, somos sempre dos mais fracos na economia europeia. Até no dia-a-dia tudo se repete: se há uma empresa de móveis a falir, os primeiros a serem despedidos são os trabalhadores que fazem os móveis, só depois a a administrativa, a técnica de marketing que é afilhada do patrão, o diretor de produção que veio indicado pelo presidente da Junta e finalmente a família do patrão. No final, o patrão culpa os “preguiçosos dos trabalhadores” pelo fracasso e sustenta que as empresa não podem operar com salários mínimos tão altos.

Voltando à Universidade, já há vinte anos a tragédia se adivinhava: perante um sistema de ensino em clara falência, com métodos ancestrais, eis que se despeja uma reforma de Bolonha, que em vez de organizar e ordenar, estabeleceu a mediocridade e o facilitismo. Ou seja, se no meu tempo havia demasiados “doutores” e muito poucos doutos, os cursos “à pressão” de hoje não têm tempo para sequer ensinar os alunos a escrever. O resultado são uma infinidade de profissionais com a profundidade de um aquário e um analfabetismo crónico.

O futuro, a começar nos próximos tempos, vai trazer cada vez mais dificuldades e desemprego jovem entre licenciados. O que não é certamente positivo, mas vai ensinar a nova geração a ser multifacetada, mais resiliente, flexível e consolidada, num mercado exponencialmente exigente. E o ensino nacional, que normalmente demora décadas a adaptar-se e a comunicar com o mercado de trabalho, vai ter de ser rápido se quiser sobreviver num mundo sem distâncias. Este será o mais importante passo para o fim do atraso sistémico do país, que se reflete na minúscula produtividade, falta de competitividade da economia e corrupção generalizada. A má notícia é que provavelmente ainda vamos continuar na cauda da Europa (mais um clichê) durante muitos anos e a verdade é que as escolhas políticas não têm ajudado.

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